• Kelly V. Giudici

Piquenique na Provence



França: terra dos queijos, vinhos e baguetes. Provence: região do sul do país, conhecida por seus campos de lavanda, suas belezas naturais e pelo estilo de vida mais sereno de seus moradores, mas não menos interessante. O que faria uma norte-americana nascida e criada em centros urbanos a se mudar para um antiga casa em um vilarejo minúsculo em plena Provence?


Em "Piquenique na Provence", a autora Elizabeth Bard nos conta justamente a sua jornada de mudança brusca de vida. Que na verdade começa alguns anos antes, quando ela conhece Gwendal, um francês morando em Paris, e resolve se estabelecer na França (tudo isso é descrito em seu primeiro livro, "Almoço em Paris").

Em seu segundo livro, Elizabeth começa grávida de seu primeiro filho, e conta quando ela e Gwendal, em uma situação não-planejada, decidem se mudar de Paris para a pacata Céreste, composta por apenas 1.300 habitantes. Enquanto explora os perrengues e as descobertas da nova rotina (e da maternidade), Elizabeth mescla os acontecimentos à sua relação com a comida e ao hobby de praticar a gastronomia francesa, inevitavelmente comparando o estilo de alimentação norte-americano com os hábitos cultivados pelos franceses (muito mais chegados nos sabores das combinações e na qualidade dos alimentos do que nas maxi-porções com gosto padronizado dos fast-food americanos).

Em uma leitura leve e divertida, somos naturalmente convidados a rever nossos próprios hábitos. Não é preciso sair correndo para uma cidade pacata no interior para aprender (ou reaprender) uma série de hábitos que a maioria de nós naturalmente acabou por negligenciar com o passar dos anos. Por que não apreciar mais as interações pessoais e a vida em comunidade (quem costuma conversar com os vizinhos?), a culinária (simples e otimizada, ou dedicada e terapêutica, como você preferir!) e as habilidades manuais para lidar com a manutenção da casa (do it yourself!)? Cada um de nós pode se beneficiar muito ao saber apreciar um ritmo de vida menos ligado nos 220V. (Aliás, se você se reconhece como alguém que vive ligado(a) nos 220V, sugiro fortemente que você descubra aqui por que precisamos desglamourizar o stress).


Como os franceses conseguem?


Você certamente já ouviu falar do paradoxo francês: franceses comem muito queijo, bebem muito vinho, comem muito pão, mas em geral apresentam bem menos excesso de peso do que populações como a norte-americana (tão preocupada com seus produtos low-carb, diet, e afins). Não é magia nem aberração, e a ciência explica: o estilo de vida menos workaholic e mais carpe diem não deixa o stress dominar a mente e detonar a saúde. A comida é vista (e saboreada) como uma aliada, uma potente fonte de prazer (naturalmente regulado), e não como um buraco-sem-fundo relacionado a culpas e exageros. Além disso, os franceses são, em linhas gerais, muito ativos. É muito fácil ver pessoas arrumadas para o trabalho ou para uma festa (mulheres de saia e salto alto!) andando de bicicleta, e pessoas de todas as idades praticando atividade física ao ar livre.


Tendo morado por 4 anos na França, pude comprovar: o estilo de vida francês é mesmo assim! A jornada de trabalho semanal é de 35 horas. Há leis que protegem funcionários de terem que ler e-mails fora do horário oficial de trabalho. Há vinhos a preço de água e tantos tipos de queijo que você pode provar um por dia ao longo de 1 ano e ainda não terá conhecido todos. Há idosos fazendo seus próprios reparos em suas residências. Há inúmeros prédios sem elevador, em que vivem pessoas de absolutamente todas as idades, que carregam suas compras do mercado, malas de viagem e até mesmo suas bicicletas escada acima e escada abaixo. Há pessoas tão acostumadas com suas bicicletas que algumas pedalam digitando ao celular (mas não faça isso, é obviamente perigoso). E mesmo fazendo 5ºC (e chovendo), aqueles que correm estarão na rua fazendo o seu treino diário. Nem tudo são flores, obviamente! Mas o que Elizabeth mostra em seu livro (e que eu pude comprovar ser verdade) é que os franceses têm muito a ensinar à nossa cultura viciada em trabalho-elevador-celular-e-comida-delivery.


Voltando ao livro...


O charme extra do livro fica justamente por conta das receitas detalhadas e comentadas pela autora ao final de cada capítulo, onde os pratos mencionados em sua história são disponibilizados aos leitores, num convite à arte de se aventurar na cozinha. Ou seja, trata-se de um esplêndido 2 em 1! Você lê e se sente automaticamente inspirado(a) a experimentar novos sabores e a descobrir se consegue surpreender sua família com uma refeição caseira simples mas ao mesmo tempo sofisticada (coisa que os franceses fazem com muita naturalidade, e para a qual a escolha dos ingredientes certamente contribui). Então, voilà! Se é de um empurrãozinho que você precisa, "Piquenique na Provence" o faz com doses extras de charme. As receitas lá estão, só falta ir à feira ou ao mercado e... mão na massa!



Livro "Piquenique na Provence - Uma história de vida com receitas" ("Picnic in Provence"), Editora Bicicleta Amarela, 1a edição, 2016. 400 páginas.


Para quem quiser saber mais sobre o que a ciência tem a dizer sobre o "paradoxo francês" e os hábitos alimentares dos franceses, confira:


Drewnowski A, Henderson SA, Shore AB, Fischler C, Preziosi P, Hercberg S. Diet quality and dietary diversity in France: implications for the French paradox. J Am Diet Assoc. 1996;96(7):663-9. doi: 10.1016/s0002-8223(96)00185-x.


Ducrot P, Méjean C, Bellisle F, Allès B, Hercberg S, Péneau S. Adherence to the French Eating Model is inversely associated with overweight and obesity: results from a large sample of French adults. Br J Nutr. 2018;120(2):231-239. doi: 10.1017/S0007114518000909.


Ferrières J. The French paradox: lessons for other countries. Heart. 2004 Jan;90(1):107-11. doi: 10.1136/heart.90.1.107.


Ndlovu T, van Jaarsveld F, Caleb OJ. French and Mediterranean-style diets: Contradictions, misconceptions and scientific facts-A review. Food Res Int. 2019;116:840-858. doi: 10.1016/j.foodres.2018.09.020.


Obrenovich M, Siddiqui B, McCloskey B, Reddy VP. The Microbiota-Gut-Brain Axis Heart Shunt Part I: The French Paradox, Heart Disease and the Microbiota. Microorganisms. 2020 Mar 30;8(4):490. doi: 10.3390/microorganisms8040490.


Rozin P, Fischler C, Imada S, Sarubin A, Wrzesniewski A. Attitudes to food and the role of food in life in the U.S.A., Japan, Flemish Belgium and France: possible implications for the diet-health debate. Appetite. 1999;33(2):163-80. doi: 10.1006/appe.1999.0244.





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