O segredo da Dinamarca



Mais uma vez trago ao NutS uma obra cujo foco não é a Nutrição, mas que pode nos fazer refletir bastante sobre os nossos hábitos alimentares e sobre as nossas opiniões pessoais e culturais em relação à alimentação. Em "O Segredo da Dinamarca", de Helen Russell, o leitor é convidado a acompanhar o ano em que Helen, então editora de uma famosa revista feminina em Londres, se muda com seu marido para um ano na Dinamarca após ele receber um convite para trabalhar na sede da empresa Lego, localizada em Billund, uma cidadezinha a 266km da capital dinamarquesa.


Sem conhecer muito sobre o novo país nem sobre os hábitos de seus habitantes, o casal se muda, e Helen troca seu antigo emprego por um ano como jornalista freelancer. Curiosa e com uma afiada veia investigadora, ela transforma seu ano sabático em um divertido relato, apresentado mês a mês, sobre seus aprendizados, dificuldades e novo estilo de vida.


O livro traz bastante das diferenças culturais dos países nórdicos em relação à maioria dos outros países ocidentais, e a formação jornalística da autora faz com ela se entusiasme a buscar respostas para descobrir por que a Dinamarca sempre desponta entre as nações cujos cidadãos se consideram os mais felizes do mundo.


O estilo hygge e a alimentação


A narrativa inclui diversos elementos que trazem à tona os efeitos deste ano sabático nos hábitos alimentares da autora e de seu marido, bem como explora com muito cuidado o conceito de comfort food. Afinal, mudar-se para um país com idioma desconhecido, congelante na maior parte do ano e com dias curtos e escuros são um belo convite ao que os dinamarqueses chamam de "hygge", um conceito peculiar que basicamente se caracteriza por tornar e seu modo de viver e o ambiente à sua volta aconchegantes e confortáveis. E é inevitável que a comida tenha um poder enorme para contribuir com isso!


Acompanhar a adaptação da dupla ao estilo hygge acaba se tornando uma agradável surpresa, e deixa o leitor com vontade de ser mais hygge também. No contexto atual, em que a pandemia do COVID-19 nos convida (ou intima) a ficar em casa o máximo de tempo possível, é como se todos nós precisássemos encontrar nosso próprio jeito hygge de ser. E a alimentação tem um papel essencial neste quesito, como já abordamos aqui.




Diferenças culturais


Somos convidados também a refletir além sobre a nossa relação cultural com os alimentos ao sermos apresentados à praticidade com que os dinamarqueses, em linhas gerais, lidam com questões que vêm se mostrando mais delicadas em outros países, como caçar sua própria refeição e usar peles de animais, ao mesmo tempo em que organizam um festival para celebrar a dança (!) das vacas no dia em que elas saem de seus estábulos para o pasto, no início da primavera.



E o segredo da tal felicidade?


De quebra, a autora transita de maneira leve e divertida entre os diferenças culturais e políticas que fazem da Dinamarca um modelo que dá certo, mas também explora os lados menos "felizes" da sociedade tida como a mais feliz do mundo (afinal, não existe país perfeito, e toda sociedade tem seus problemas).


Com um humor bem dosado, o livro ao mesmo tempo enriquece nossos conhecimentos sobre diferenças culturais, tenta entender as razões delas e, mais do que isso, nos convida a olhar para dentro e pensar como podemos, por meio de escolhas individuais e de graduais mudanças de hábito, viver de maneira mais leve e consequentemente mais feliz. Afinal de contas, tudo acaba sendo uma questão de equilíbrio.



Livro "O segredo da Dinamarca" ("The Year of Living Danishly"), Editora Leya, 1a edição, 2016. 366 páginas.


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