• Clarissa T. H. Fujiwara

O impacto de fast-food no tratamento do excesso de peso

Trazemos no NutS mais um post da série de temas pautados no conteúdo do Posicionamento sobre o tratamento nutricional do sobrepeso e da obesidade da Associação Brasileira para o estudo da obesidade e da síndrome metabólica (ABESO) publicado neste ano, discorrendo sobre o tema da influência e fast-food no excesso de peso.


Para começar com a definição, o termo fast-food pode ser entendido como refeições preparadas fora de casa, que oferecem conveniência e projetadas a ser prontamente disponíveis para consumo, assim como todo o processo de produção dessas refeições geralmente se mostra altamente mecanizado - afinal o propósito aqui é vender comida rapidamente e otimizando custos.

Ainda complementando, refeições típicas de fast-food são servidas em grandes porções, caracterizadas por perfil nutricional desfavorável, o que significa, gordura saturada e/ou trans, açúcares e sódio em excesso.



Alguns exemplos de fast-food estão relativamente disponíveis e abundantes especialmente nas ruas de cidades metropolitanas (e nas opções de deliveries) e podem incluir, dentre uma lista extensa, hambúrguer, pizza, cachorro-quente, batata-frita e outras preparações fritas, como nuggets, além de bebidas ricas em açúcar, tais como refrigerante e milkshake, comercializados geralmente dentro de promoções que induzem à aquisição de maior quantidade do que se inicialmente se planejaria. Inclusive, o nosso Guia Alimentar para a População Brasileira destaca que restaurantes fast-food consistem em locais particularmente inapropriados para o consumo, justificado pelo fato dos frequentadores serem induzidos a comer rapidamente e, por tabela, sem atenção, além de estar combinado à oferta excessiva de comida ultraprocessada e escassa de alimentos in natura ou minimamente processados.


Em particular na América Latina, observou-se a expansão de redes de restaurantes fast-food que comercializam alimentos não saudáveis de forma significativa e o maior consumo constitui de componente crescente da alimentação, contribuindo para a ingestão de energia (com baixa qualidade do ponto de vista nutricional) além do necessário e, por consequência, maior risco de ganho de peso em excesso. Observando os dados do levantamento nacional da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018 (a última disponível até a data), embora a maioria das refeições tenha sido realizada em casa, o percentual de despesas com alimentação fora do domicílio, como em lanchonetes, tanto em áreas urbanas e rurais foi de, respectivamente, 33,9% e de 24,0%. Em estudo que explorou dados da POF 2008-2009 referentes à contribuição da parcela de refeições fora de casa sobre a ingestão de energia em 25 mil brasileiros com mais de 10 anos de idade, residentes de áreas urbanas, observou-se que 43% dos participantes referiram consumir pelo menos um alimento ou bebida fora de casa por dia e cerca de 18% da ingestão calórica diária proveniente dos itens consumidos fora do lar. Apenas para ter uma ideia, as maiores fontes de energia provenientes de alimentos e bebidas consumidas fora de casa consistiram de salgadinhos assados e fritos, pizza, refrigerantes, sanduíches e doces, além de bebidas alcoólicas.



Numa revisão que avaliou extensivamente a associação entre a alimentação fora de casa e o peso em adultos, apesar da limitação entre comparações diretas dos trabalhos decorrente de diferenças metodológicas, a alimentação fora de casa foi associada ao maior peso corporal em cerca de metade dos estudos avaliados. Em investigação da influência de fatores comportamentais, especifcamente a ingestão de fast-food, sobre o peso corporal entre adultos no período pré-operatório de cirurgia bariátrica. A frequência média no consumo de fast-food foi de 2,68/semana e cerca de 37% da amostra reportou “tédio” como o principal sentimento associado para comer. Em estudo de coorte prospectivo espanhol com cerca de 10 mil adultos que foram acompanhados por cerca de 4,6 anos, verificou-se por meio de questionário de frequência alimentar, que indivíduos com hábito beliscador, apresentavam maior ingestão de fast-food (definido como a soma de hambúrgueres, pizzas e salsichas consumidos) e tinham chance 66% maior de ganhar ≥ 3kg de peso/ano em comparação àqueles que não apresentavam esse comportamento.


Em estudo norte-americano que avaliou mais de 4 mil crianças e adolescentes (idade entre 2 e 18 anos) provenientes do National Health and Nutrition Examination (NHANES) 2007-2010, examinou-se a associação entre o consumo de fast-food aos padrões alimentares Ocidental ou prudente – que consiste na menor ingestão de açúcares e preparações fritas, incremento no consumo de frutas, verduras e legumes. Foi observado que metade das crianças e adolescentes consumia fast-food, sendo que 10,5% referiram alta ingestão (> 30% da energia/dia) e que a colocavam com maior probabilidade de seguir dieta de padrão alimentar Ocidental (embora a ingestão de fast-food não foi diretamente relacionadao ao maior risco de sobrepeso e obesidade, o padrão alimentar Ocidental, por sua vez, se mostrou relacionado ao excesso de peso na amostra).


Vale pensar que, dentre os determinantes para o consumo de fast-food, está a proximidade e a alta oferta de estabelecimentos que comercializam este tipo de refeição no ambiente, não obstante a influência na qualidade geral da alimentação decorra sobretudo da interação de fatores econômicos e socioculturais (e olha aí o papel da publicidade). É importante observar que os processos de urbanização e o crescimento econômico de países de baixa e média renda impulsionaram a modificação nos padrões de consumo alimentar, estimulando a ingestão de alimentos de elevada densidade energética e pobres nutricionalmente, incluindo na conta a abundância de fast-food).



O consumo isolado de fast-food não foi associado ao excesso de peso sugerindo que o contexto alimentar, ou seja o padrão alimentar, consiste no fator mais influente sobre o peso que a ingestão propriamente de fast-food. Essa visão faz sentido, considerando que numa orientação com base em alimentação equilibrada (tendo preponderância de alimentos in natura e minimamente processados), sem se pautar em restrições, comer pontualmente refeições fast-food, em situações programadas, faz parte dessa recomendação.


Uma discussão atual que gira em torno da tributação de alimentos e bebidas não-saudáveis gira em torno do tema fast-food. A implementação de impostos e subsídios podem ser considerados, embora mais estudos se debruçando no assunto sejam necessários, como instrumentos potenciais para incentivar os consumidores a melhorar padrões de consumo de alimentos e bebidas. Adicionalmente, intervenções que propiciem maior transparência de informação nutricional e de ingredientes dos produtos comercializados, promover a conscientização do consumidor sobre o tamanho das porções, além de regulamentações para que preços de alimentos e bebidas sejam proporcionais, de forma a criar incentivos para inibir o tamanho excessivo das porções. Além disso, estratégias direcionadas para a reformulação de refeições comercializadas nos estabelecimentos que comercializam fast-food, visando melhorar a qualidade nutricional, podem ser relevantes para mitigar o risco de excesso de peso e para menor impacto na saúde de forma geral.


REFERÊNCIAS


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