• Clarissa T. H. Fujiwara

Frutas, legumes e verduras no tratamento do excesso de peso

O NutS traz no post da semana tema baseado num dos capítulos do Posicionamento sobre o tratamento nutricional do sobrepeso e da obesidade publicados pela Associação Brasileira para o estudo da obesidade e da síndrome metabólica (ABESO) em Julho deste ano pelo Departamento de Nutrição - ao qual integro - contemplando o papel de frutas, legumes e verduras (FLV) como abordagem nutricional no excesso de peso.

Apenas para se ter um panorama, no cenário nacional, de acordo com levantamento do VIGITEL (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), somente pouco mais de 1/3 da população adulta consome frutas e hortaliças com frequência em ≥ 5 dias da semana. A proporção diminui para 22,9% quando se considera a ingestão diária recomendada de ao menos 5 porções de frutas e hortaliças. Além disso, indivíduos do sexo feminino, com maior a idade e maior nível de escolaridade, apresentaram consumo mais regular desses alimentos.


Cabe mencionar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda, como parte de um padrão alimentar saudável, a ingestão diária de ao menos 400 g de FLV (vale lembrar que nesse cômputo se excluem batatas e outros tubérculos ricos em amido, como mandioquinha, mandioca, inhame, por exemplo), o que equivale ao consumo diário de 5 porções desses alimentos.



Benefícios de FLV

Se pensarmos no papel de FLV, percebemos que constituem de importante fonte de vitaminas e minerais, compostos bioativos (já falamos aqui sobre os diferentes pigmentos em leque amplo de alimentos) e de fibras alimentares, contribuindo de forma significativa à nutrição humana. A baixa ingestão desses alimentos, presente na população brasileira, mostra estar inversamente associada ao aumento no risco de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), incluindo doenças cardiovasculares (DCVs) e certos tipos de câncer.


Quando se trata do gerenciamento de peso, mecanismos possivelmente relacionados à regulação da fome e da ingestão energética resultante do consumo de frutas e vegetais pobres em amido, decorrem da estrutura física, em geral com alto teor de água, presença de fibras alimentares - como mencionado anteriormente - e quantidades baixa ou ausente de gorduras, resultando em perfil nutricional de baixa densidade energética (em geral < 100 kcal por porção). Dessa forma, esses grupos alimentares fornecem quantidade consideravelmente menor de calorias em comparação a alimentos ultraprocessados e se tornam, portanto, adjuvantes para a levar ao balanço energético negativo e, consequentemente, auxiliar na perda de peso.


Particularmente, diversos fitoquímicos são encontrados na matriz alimentar de frutas, verduras e legumes e, muito embora, a maioria desses compostos não sejam considerados essenciais às funções vitais em humanos, podem conferir benefícios desejáveis à saúde, como reduzir o risco de DCVs e alguns tipos de câncer.


As fibras alimentares presentes em FLV, poderiam influenciar a microbiota do trato intestinal e aumentar as proporções dos filos Bacteroidetes e Actinobacteria, que são predominantes em indivíduos sem excesso de peso, todavia diminuem a prevalência de Firmicutes e Proteobacteria, dominantes na microbiota intestinal de indivíduos com obesidade, embora mais estudos são necessários para explorar os efeitos da relação entre o consumo de FVL e mudanças na comunidade microbiana intestinal do hospedeiro.


Alimentos com maior teor de fibras alimentares podem contribuir para o estado de saciedade mais prolongado, o que pode influenciar diretamente o consumo calórico total. As fibras, especialmente solúveis, lentificam o esvaziamento gástrico e promovem a liberação de incretinas como a colecistoquinina (CCK), peptídeo semelhante a glucagon 1 (GLP-1) e peptídeo YY (PYY), favorecendo a saciedade. A liberação de GLP-1 e PYY pode, em parte, ser mediada pela liberação de ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs) decorrentes da fermentação das fibras pela microbiota intestinal. Padrões dietéticos que não atendem à ingestão recomendada de frutas, especialmente na forma in natura, verduras, legumes e grãos/cereais integrais estão diretamente relacionados à baixa ingestão de fibras alimentares.



Estudos acerca de FLV e saúde humana

Para ilustrar a partir de alguns estudos com importante número de participantes, por meio da investigação de Wang et al. (2021) com dados dos estudos de coorte do Nurses' Health Study (n = 66.719) e Health Professionals Follow-up Study (n = 42.016), encontraram-se associações inversas entre a ingestão de frutas e vegetais com a mortalidade total e a mortalidade por câncer, DCV e doença respiratória. A ingestão de 5 porções por dia de frutas e vegetais (ou 2 porções de frutas e 3 porções de vegetais), foi associada à menor mortalidade e, acima desse nível, maior ingestão não se relacionou com redução adicional de risco. Similarmente, a metanálise que incorporou os dois estudos de coorte citados, além de outros 24 estudos de coorte prospectivos (resultando em impressionantes n = 1.892.885) mostrou que a maior ingestão de frutas e vegetais foi associada com menor mortalidade, com exceção de sucos de frutas e de vegetais ricos em amido. Em revisão sistemática e metanálise que incluiu 563.277 participantes provenientes de 17 estudos de coorte, o incremento em 100 g/dia do consumo de frutas se relacionou à diminuição modesta de peso (-0,137 g/ano) e da circunferência da cintura (-0,04 cm/ano). A maior categoria de consumo combinando frutas, verduras e legumes foi associada à redução de até 17% em parâmetros de adiposidade, como risco de excesso de peso.


Aqui fica um disclaimer: a revisão de Boeing et al. (2012) sugere que o aumento no consumo de frutas e hortaliças pode ser uma estratégia adequada para favorecer a perda ou menor ganho de peso. Contudo, na hipótese de que nenhum outro aspecto da ingestão ou gasto energético sofra alteração, há poucas evidências de que o aconselhamento nutricional baseado unicamente no consumo de frutas e hortaliças, isoladamente, seja capaz de promover perda de peso significativa. Complementarmente, em revisão sistemática de Kaiser et al. (2014) os autores concluíram que os estudos não apoiam a proposição de que recomendações para somente aumentar a ingestão desses alimentos gerem perda de peso e sugerem ser pouco provável a ocorrência de perda significativa de peso sem que haja redução compensatória na ingestão total de energia mediante outros alimentos.


E os sucos de frutas?

Vale também aqui ressaltar que sucos de fruta integrais, muito embora apresentem teor de micronutrientes e fitoquímicos semelhantes à fruta in natura, não mantêm o conteúdo de fibra alimentar e a estrutura física que permite a mastigação e a ingestão de frutas, verduras em formas líquidas parece facilitar a ingestão excessiva e predispor ao ganho de peso em comparação às formas sólidas desses alimentos. Portanto, o consumo das frutas inteiras é preferível.



REFERÊNCIAS


Associação Brasileira para o estudo da obesidade e da síndrome metabólica - ABESO. Posicionamento sobre o tratamento nutricional do sobrepeso e da obesidade: departamento de nutrição da ABESO, 2022.


Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIGITEL). Estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2019. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças não transmissíveis – Brasília: Ministério da Saúde, 2019.


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