• Kelly V. Giudici

Precisamos desglamourizar o stress



O estilo de vida da sociedade atual é pautado em algo cada vez mais notável: o stress. Principalmente depois da popularização da internet e dos smartphones, vivemos conectados 100% do tempo, sendo bombardeados de informações (verdadeiras e falsas), e constantemente correndo contra o tempo para fazer tudo que queremos e precisamos (ou que achamos que queremos e precisamos). Aos poucos, fomos deixando o stress adquirir status, cravejando-o de glamour. Pode parecer exagero, mas hoje venho aqui mostrar elementos que provam que deixamos este "cavalo de Troia" entrar nas nossas vidas sem termos nos dado conta do que viria a seguir.


O stress afeta diretamente o comportamento alimentar e, portanto, a alimentação em si. Nos faz comer em excesso, principalmente alimentos de pior qualidade, ricos em sal, açúcar e gorduras. Também aumenta a pressão arterial e o risco de doenças cardiovasculares, favorece a obesidade e a inflamação. É um dos gatilhos que desencadeia a manifestação de doenças auto-imunes. Se relaciona também com depressão, transtorno obsessivo compulsivo (TOC), transtorno de ansiedade, síndrome do pânico e síndrome de burnout. Aumenta o risco de desenvolver doença de Alzheimer. Acelera o envelhecimento celular. E eu poderia listar mais uma porção de efeitos metabólicos, físicos e psicológicos, mas acho que já conseguimos ter dimensão do buraco que estamos cavando ao normalizar o stress no cotidiano, certo?



Uma analogia inevitável


Você já parou para pensar que estamos fazendo com o stress o que décadas atrás era feito com o cigarro? Quão antiquados soam hoje em dia aqueles anúncios publicitários de pessoas elegantes curtindo a vida e baforando toxinas por todos os lados, ou cavalos selvagens correndo livres, representando um lifestyle de aventura e prazer que só o cigarro podia oferecer? Essa era a realidade, e não faz muito tempo! É bizarro, mas cerca de 30 anos atrás, fumar era permitido em restaurantes, aviões e praticamente todo tipo de ambiente fechado!



E corta pra 2022: o stress é o novo cigarro. Soa tão normal ouvir alguém se lamentar de que não está dando conta de tudo que tem para fazer, de que falta tempo para tudo. São as horas perdidas no trânsito, o excesso de tarefas no trabalho, o WhatsApp e o email apitando sem parar a qualquer hora do dia e da noite... O problema é que este "lamentar" vem inebriado de uma certa vanglorização, que apesar de velada, é sim nítida (mesmo que inconscientemente) para todos os envolvidos! E sem nem nos darmos conta, normalizamos o stress. Pior, glamourizamos o stress! E isto é muito grave. Principalmente porque o stress não é um produto, é um comportamento. Não pode ter seu preço de venda aumentado (é grátis!), nem ter uma tarja colada em seu rótulo anunciando os males, pois não é palpável. Também não pode ser simplesmente "proibido" em locais fechados! Isto o torna muito mais volátil aos esforços de derrubá-lo. É necessário muito mais do que estabelecer novas regras ou implementar políticas públicas de incentivo a uma vida menos estressante.



O que fazer então?


Reconhecer o próprio nível de stress (combatendo o processo de negação) e parar de valorizar e/ou se sentir valorizado ao se manter sob doses elevadas dele é o primeiro passo para combatê-lo. Enquanto dizer para alguém que conseguir ter um dia em que dormiu bem, trabalhou as horas esperadas e aproveitou a vida no resto do tempo seja motivo de vergonha e não de orgulho, não conseguiremos combater o que está acelerando o nosso envelhecimento e aos poucos nos matando mais rápido.


Espero sinceramente que em um futuro não tão distante a sociedade olhe para a normalização do stress com a mesma incredulidade sobre a qual hoje lembramos de quando fumar dentro de um avião era aceito. Comportamentos sociais levam tempo para mudar, e temos sem dúvida um longo caminho pela frente. Mas reconhecer que deturpamos algo muito nocivo travestindo-o com a fantasia do glamour é um passo importante.




Referências


Brierley MEE, Thompson EM, Albertella L, Fontenelle LF. Lifestyle Interventions in the Treatment of Obsessive-Compulsive and Related Disorders: A Systematic Review. Psychosom Med. 2021;83(8):817-833. doi: 10.1097/PSY.0000000000000988.


Choe JY, Nair M, Basha R, Kim BJ, Jones HP. Defining Early Life Stress as a Precursor for Autoimmune Disease. Crit Rev Immunol. 2019;39(5):329-342. doi: 10.1615/CritRevImmunol.2020033244.


Collins SV, Hines AL. Stress Reduction to Decrease Hypertension for Black Women: A Scoping Review of Trials and Interventions. J Racial Ethn Health Disparities. 2021 Oct 4. doi: 10.1007/s40615-021-01160-y.


Cutolo M, Straub RH. Stress as a risk factor in the pathogenesis of rheumatoid arthritis. Neuroimmunomodulation. 2006;13(5-6):277-82. doi: 10.1159/000104855.


Cutolo M, Straub RH. Insights into endocrine-immunological disturbances in autoimmunity and their impact on treatment. Arthritis Res Ther. 2009;11(2):218. doi: 10.1186/ar2630.


Ginsberg SD, Joshi S, Sharma S, Guzman G, Wang T, et al. The penalty of stress - Epichaperomes negatively reshaping the brain in neurodegenerative disorders.

J Neurochem. 2021;159(6):958-979. doi: 10.1111/jnc.15525.


Hecker M, Bühring J, Fitzner B, Rommer PS, Zettl UK. Genetic, Environmental and Lifestyle Determinants of Accelerated Telomere Attrition as Contributors to Risk and Severity of Multiple Sclerosis. Biomolecules. 2021;11(10):1510. doi: 10.3390/biom11101510.


Hynes M. Beyond Ablation in Atrial Fibrillation: 10 Steps to Better Control.Am J Lifestyle Med. 2020;15(4):434-440. doi: 10.1177/1559827620943326.


Krivanek TJ, Gale SA, McFeeley BM, Nicastri CM, Daffner KR. Promoting Successful Cognitive Aging: A Ten-Year Update. J Alzheimers Dis. 2021;81(3):871-920. doi: 10.3233/JAD-201462.


Littrell J. The mind-body connection: not just a theory anymore. Soc Work Health Care. 2008;46(4):17-37. doi: 10.1300/j010v46n04_02.


López-Taboada I, González-Pardo H, Conejo NM. Western Diet: Implications for Brain Function and Behavior. Front Psychol. 2020;11:564413. doi: 10.3389/fpsyg.2020.564413.


Morera LP, Marchiori GN, Medrano LA, Defagó MD. Stress, Dietary Patterns and Cardiovascular Disease: A Mini-Review. Front Neurosci. 2019;13:1226. doi: 10.3389/fnins.2019.01226.


Skýbová D, Šlachtová H, Tomášková H, Dalecká A, Maďar R. Risk of chronic diseases limiting longevity and healthy aging by lifestyle and socio-economic factors during the life-course - a narrative review. Med Pr. 2021;72(5):535-548. doi: 10.13075/mp.5893.01139.


van Trier TJ, Mohammadnia N, Snaterse M, Peters RJG, et al. Lifestyle management to prevent atherosclerotic cardiovascular disease: evidence and challenges. Neth Heart J. 2022;30(1):3-14. doi: 10.1007/s12471-021-01642-y.


Yu JT, Xu W, Tan CC, Andrieu S, Suckling J, et al. Evidence-based prevention of Alzheimer's disease: systematic review and meta-analysis of 243 observational prospective studies and 153 randomised controlled trials. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2020;91(11):1201-1209. doi: 10.1136/jnnp-2019-321913.

Posts recentes

Ver tudo
Últimos posts
Tags