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O passado secreto das cenouras

20/11/2019

Escrito por

 

Existem alimentos que, da forma como são conhecidos, acabam se tornando caricatos no nosso imaginário. É natural que ao pensar em um morango, por exemplo, você imagine uma fruta vermelha, e ao pensar em uma jaboticaba, mentalize uma fruta redondinha e escura. É também muito curioso fazer este mesmo exercicio em diferentes locais do mundo, dada a diversidade regional dos alimentos. A primeira imagem que vem à mente quando pensamos em limão é, provavelmente, a de um fruto redondo e verde. Para um italiano, porém, a imagem provavelmente seria de um fruto amarelo, maior e levemente pontudo nas extremidades. Sim, aquele que conhecemos como limão siciliano é a versão "normal" do limão em diversos paises da Europa, enquanto nosso limão tahiti é considerado exótico por lá.

 

A variabilidade de tipos de um mesmo alimento não é novidade para diversas frutas e hortaliças, mas se tem um que poucos conhecem de outra forma, é a cenoura. Quais as chances de você ter acabado de pensar em um legume alongado e laranja? Bem grandes, aposto! Afinal, você provavelmente nunca viu uma cenoura de outra forma.

 

Mas não é bem assim...

 

Na natureza existem diferentes formas de cenoura (Daucus carota). Há cenouras brancas, roxas, vermelhas, laranjas, amarelas e até mesmo quase pretas! Como você ja aprendeu aqui, diferentes cores implicam em diferentes composições nutricionais. No caso das cenouras, suas diferentes variações cromáticas são o resultado de concentrações diferentes de carotenóides e antocianinas.

 

Mas como ocorreu então o predomínio incontestável das cenouras laranjas?

 

 

O caminho até o laranja atual

 

Segundo David Vergauwen e Ive De Smet, pesquisadores que se aprofundaram na relação temporal entre seres humanos e cenouras, documentos históricos levam a crer que a domesticação da cenoura (predominantemente roxas e amarelas) tenha se iniciado nas regiões do Afeganistão e Índia, por volta do século IX (apesar de indícios de sua presença na alimentação humana desde o século I). Deste período até o século XI, variedades de cenouras roxas, vermelhas, brancas e amareladas percorreram territórios como Síria, Constantinopla e norte da África, até chegar à Espanha e, posteriormente, ao resto da Europa. Especula-se que a variação laranja tenha surgido naturalmente no século XVI a partir das variedades amarelas, devido à ação de um gene dominante. Além disso, o surgimento de cenouras vermelhas (ricas em licopeno, o mesmo pigmento que dá cor aos tomates) na China e Japão por volta do século XVIII ainda tem origens não esclarecidas.

 

 

E uma curiosidade!

 

O interessante é que a universalização das cenouras laranjas tem possíveis causas históricas aliadas à sua evolução genética. O surgimento da cenoura laranja coincidiu com a emergência da revolução agrícola na Holanda, no mesmo período da luta holandesa pela independência da Espanha sob a dinastia Orange-Nassau, conhecida como Guerra dos Oitenta Anos (1566-1648). Há rumores de que esta cor tenha sido propositadamente cultivada em homenagem à Casa Real Holandesa de Orange, e se espalhado pela Europa (e mais tarde pelo mundo) inicialmente como uma simbologia política. De fato, a Holanda apresentou importante papel na agricultura européia na época, quando William III de Orange se tornou rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda após a Revolução Gloriosa de 1688-89, expandindo o cultivo agrícola (incluindo a cenoura laranja) nestas regiões.

 

 

Referências

 

Vergauwen D, De Smet I. Down the Rabbit Hole – Carrots, Genetics and Art. Trends in Plant Science 2016; 21: 895-898.

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