Programação fetal: lições da II Guerra Mundial (parte 2)

05/10/2017

Como promessa é dívida, hoje vamos contar o que aprendemos sobre programação fetal com a II Guerra Mundial. Aliás, você já leu a parte 1 desse post, publicado no dia 02 de agosto de 2017? Então, antes de partir para a leitura do post de hoje, para entender o que é programação fetal, recomendamos a leitura do nosso primeiro artigo sobre o tema.

 

 

A teoria da programação fetal (ou de Barker), refere-se a como a nutrição do feto (no útero) e nos primeiros dias de vida pode determinar os processos que levam à saúde e à doença deste indivíduo na idade adulta. Hoje, contaremos como a II Guerra Mundial contribuiu para os achados do professor Barker.

 

Bem resumidamente, a II Guerra mundial foi um conflito militar, que, em 1939, culminou na invasão da Polônia pela Alemanha nazista de Hitler (Alemanha, Itália e Japão = Eixo). Em resposta à essa invasão, a França, Estados Unidos e União Soviética (= Aliados) declararam guerra à Alemanha Hitlerista.

 

Após a invasão das forças Aliadas no dia 6 de junho de 1944, algumas semanas de guerras pesadas aconteceram na Europa. As forças Aliadas, então, conseguiram romper as barreiras Alemãs e, rapidamente, suas tropas tomaram posse da França, Luxemburgo e Bélgica. Até o dia 4 de setembro, os Aliados tinham em mãos a cidade estratégica de Antwerp e, no dia 14, as tropas entraram na Holanda. Tanto a Holanda quanto os comandantes das tropas Aliadas acreditavam que a ocupação da Alemanha aconteceria de forma rápida e, para apoiar a ofensiva dos Aliados, o governo holandês interrompeu o funcionamento de todas as ferrovias holandesas. Em retaliação, o governo alemão interrompeu todo o fornecimento de alimentos para a Holanda. Essa retaliação foi suspensa em novembro de 1944, quando o transporte de alimentos para a Holanda via embarcações foi liberado. Contudo, nessa época, a maior parte dos canais e vias aquáticas estavam congeladas pela chegada precoce de um inverno severo, o que tornou impossível o transporte de alimentos para o oeste rural e oeste urbano da Holanda. Como consequência, os estoques de comida no oeste rural da Holanda se esgotaram rapidamente.

 

As porções de comida (chamadas de rações) para a população adulta caíram para menos de 1000 quilocalorias por dia no final de novembro de 1944. No auge da fome, de dezembro de 1944 a abril de 1945, as rações diárias variaram entre 400 e 800 quilocalorias. Crianças menores de um ano de idade estavam relativamente protegidas, porque as necessidades das rações (que nunca passaram de 1000 quilocalorias) se equiparavam aos seus gastos energéticos. Gestantes e lactantes tinham direito a quantidade maior de comida, mas no auge da fome, esse aporte já não podia ser garantido. Comidas extras vinham do mercado negro, cozinhas centrais, organizações religiosas e de pessoas que fugiam para áreas rurais. A situação só melhorou com a liberação da Holanda, em maio de 1945. Um mês depois, as rações chegaram a mais de 2000 quilocalorias. No entanto, a fome teve um efeito profundo na saúde da população. Em Amsterdã, a mortalidade em 1945 quase triplicou em relação a 1939, e a causa das mortes foram atribuídas, majoritariamente, à desnutrição. Nessas condições adversas, as mulheres geraram e deram a luz a bebês, e é por causa desses bebês, que hoje podemos estudar os efeitos da desnutrição materna e fome durante períodos específicos da gestação em humanos.

 

 

 

Por que a II Guerra Mundial? Por que a Holanda?

 

Só conseguimos avaliar os efeitos da alimentação durante a gestação em modelos animais. Por motivos óbvios: ninguém aceitaria, por exemplo, submeter-se a 3, 6 ou 9 meses de fome, com ingestão mínima de calorias, apenas para provar uma hipótese. Aliás, isso é absolutamente antiético e ilegal, caso fosse proposto para alguma mulher ou gestante! Outro fator que também interferiria nesse processo, é o tempo que esse estudo todo levaria. Teríamos que fazer uma observação / intervenção durante a gestação, esperar os 9 meses de gestação e mais os 40, 50, 60 anos para que essas pessoas desenvolvessem a condição esperada. Nos ratos e camundongos, a gestação dura 3 semanas, a lactação dura 3 semanas e até atingirem a idade adulta, passam-se mais algumas semanas. Por isso, é importante ressaltar a importância dos estudos com animais para concluirmos os riscos de um determinado tipo de alimentação materna, por exemplo, para a saúde dos filhos.

 

 

 

No entanto, na guerra, as condições as quais nunca poderíamos expor os participantes de uma pesquisa são naturalmente impostas pela situação histórica. Apesar da fome ser, lamentavelmente, usual na guerra, a desnutrição geralmente é crônica, acompanhada de processos infecciosos, e não é específica da gestação. O diferencial da Holanda na II Guerra Mundial é que a fome e a desnutrição foram impostas a uma população previamente saudável. Além disso, apesar das adversidades trazidas pela guerra, as obstetrizes e médicos deste país continuaram a ofertar seus serviços profissionais, e mantiveram todos os dados do pré-natal e nascimento bem documentados. Outro importante fator é que foram registradas informações detalhadas sobre as porções de comidas semanais oferecidas para a população. As informações do nascimento nas diferentes cidades holandesas afetadas pela guerra foram mantidas, o que possibilitou que os pesquisadores rastreassem as crianças nascidas nesse período.

 

E aí? Gostaram? Se sim, curtam e compartilhem nossos textos nas redes sociais!

 

E até a próxima!

 

 

Referência

 

Roseboom TJ, van der Meulen JH, Ravelli AC, Osmond C, Barker DJ, Bleker OP. Effects of prenatal exposure to the Dutch famine on adult disease in later life: an overview. Mol Cell Endocrinol. 2001 Dec 20;185(1-2):93-8.

 

The Dutch Famine Birth Cohort Study. Disponível em: http://www.dutchfamine.nl/index_files/study.htm

 

Fonte da segunda imagem: Universidade de Leiden.

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