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“... de um lado esse carnaval, do outro a fome total”

01/08/2018

 

Na semana passada fui marcada num post publicado no dia 31 de maio de 2018 pela renomada revista inglesa “The Economist”. A matéria instigou uma reflexão que eu julgo bem importante e que gostaria de compartilhar com nossos leitores. Particularmente porque vivemos num país em que a distribuição de renda é bastante desigual.

 

Na matéria intitulada "Big little ones" (ou "grandes pequenos") a revista pontua, utilizando dados nacionais sobre a alimentação na Inglaterra, que, enquanto a parcela mais rica das crianças perde peso, a parcela mais pobre da população permanece ganhando peso, contribuindo para os índices de obesidade no país. Entre os motivos apontados para essa diferença do estado nutricional das crianças ricas e pobres são mencionados a maior escolaridade dos mais abastados, o tempo que pode ser despendido pelos pais/cuidadores com a preparação de refeições mais saudáveis, a alta probabilidade de viver em regiões mais verdes e a possibilidade de pagar para praticar atividades físicas em clubes e academias. Enquanto isso, a parcela mais pobre da população tem pouco tempo disponível para pensar sobre seus problemas, uma vez que a preocupação e energia das pessoas dessa classe social estão voltadas para pagar o aluguel e as contas da casa.

 

 

Será que a desigualdade no Brasil também afeta o estado nutricional de crianças e adultos assim como acontece na Inglaterra?

 

 

Por que será que existe essa diferença entre a obesidade nas populações ricas e pobres brasileiras? Por que não observamos a mesma coisa que atualmente é observado na Inglaterra?


A resposta não é tão simples, porque a causa da obesidade depende de muitos fatores, inclusive da composição corporal das pessoas de cada nacionalidade (alguns com mais e outros com menos peso e gordura). Os dados nacionais sobre a obesidade nos diferentes países do mundo mostram que em países desenvolvidos, o número de pessoas obesas já está estabilizado em valores elevados. Ou seja, artigos mostram que na Austrália, Estados Unidos, Suíça, Suécia e Inglaterra é pouco provável que os índices de obesidade aumentem. No Brasil, por ainda estar em desenvolvimento, ainda são frequentes casos de desnutrição, principalmente entre as populações mais jovens.


Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico mostram que 27,9% da população australiana é obesa, nos EUA são 38,2% da população e no Reino Unido, 26,9% da população tem obesidade. Enquanto isso, no Brasil, 20% temos obesidade. Ou seja, possivelmente nossos índices de obesidade ainda não se estabilizaram e a nossa população deverá ficar mais obesa.


Quando isso acontecer, é muito provável que observemos as mesmas tendências da Inglaterra: maior prevalência de obesidade na população de baixa renda do que na de alta renda. 


Não é surpreendente que a desigualdade traga consequências tão graves para o estado nutricional da população. Aliás, já estamos cansados de ler sobre a relação entre a falta de acesso a alimentos de qualidade e a desnutrição. 


Dado a nossa má distribuição de renda, infelizmente, não demorará muito para aumentarmos a nossa parcela de “grandes pequenos”, que, ao meu ver, foi uma excelente escolha para o título da matéria do “The Economist”. Afinal, as crianças são grandes em relação ao peso, pequenos pela idade, mas também pequenos, porque pertencem a uma parcela da população que tem uma renda pequena. 


Na nossa experiência profissional, muitas das nossas crianças de baixa renda já enfrentam esse problema. E é por isso que o renomado professor Sir Michael Marmot, da University College London, ressalta que, caso a gente queira sanar o problema da obesidade, antes temos que resolver o problema da desigualdade. 

 

 

Referências


Patterns and trends inadult obesity. Public Health England. Acesso em 31/07/2018. Acesse aqui.

As rich children slim down, poor ones are getting fatter. The Economist. Acesso em 31/07/2018. Acesse aqui.

Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF). Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Acesso em 31/07/2018. Acesse aqui

 

Olds T, Maher C, Zumin S et al. Evidence that the prevalence of childhood overweight is plateauing: data from nine countries. Int J Pediatr Obes 2011, v.6, 342-60.

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