A teoria da Programação Fetal (ou Hipótese de Barker)

03/08/2017

 

O nome parece complicado, mas nesse post pretendemos esclarecer como surgiu uma teoria que vem ganhando muita atenção nos últimos anos. Também conhecida como a Teoria da Programação Fetal, essa ideia ganhou maior destaque quando o professor e epidemiologista David Barker, falecido em 2013, observou um paradoxo:

 

Nas regiões mais pobres da Grã-Bretanha e nos grupos populacionais mais carentes, as taxas de doença cardiovascular eram duas vezes mais altas que nas regiões mais ricas.

 

O professor Barker constatou que a distribuição geográfica da mortalidade por doenças cardiovasculares em partes diferentes da Inglaterra e País de Gales era muito similar à distribuição da mortalidade infantil anos antes. Esse estudo reuniu os certificados de óbitos de todas as pessoas que faleceram entre 1968 e 1978 por doenças cardiovasculares e as taxas de mortalidade infantil entre 1901 e 1910.

 

Curiosamente, a baixa mortalidade por doenças cardiovasculares entre 68 e 78 se concentravam nas regiões industriais, aquelas mais ricas (sul e oeste da Inglaterra e País de Gales). Em contrapartida, a mortalidade elevada por este tipo de doença, concentrava-se nas regiões rurais mais pobres (norte e leste). A mesma distribuição foi observada quando se investigou a mortalidade infantil (morte de crianças menores de 1 ano) entre 1901 e 1910: as taxas de mortalidade infantil eram mais altas nas regiões mais pobres da Inglaterra e País de Gales.

 

Estaria, então, a mortalidade por doenças cardiovasculares associada à mortalidade infantil anos antes?

 

O professor Barker ainda fez algumas constatações, baseadas no estudo que conduziu dos registros de nascimentos e mortalidades da Inglaterra (que eram muito detalhados):

 

  

  • A mortalidade materna também obedecia a mesma distribuição geográfica da mortalidade infantil: eram maiores nas áreas rurais, pobres, e menores nas regiões mais ricas.

  • Ainda, a mortalidade materna apresentou forte associação com índices de infarto anos mais tarde.

  • Estudos de outros autores apontaram que, entre as causas mais importantes de mortalidade materna, configurava a (des)nutrição.

 

Será que as condições precárias de desenvolvimento fetal, como a desnutrição materna e infantil – relacionadas às situações de escassez, comuns às regiões mais carentes – afetaria o risco de doença cardiovascular na idade adulta?

 

Sim!

 

Assim surgiu a hipótese do professor David Barker, de que a (des)nutrição, saúde e desenvolvimento de meninas e mulheres é responsável pela origem dos índices elevados de mortalidade por doença cardiovascular da próxima geração. Essas condições prejudicam a habilidade das mães de nutrirem seus bebês no útero e na infância. O feto responde à desnutrição ou má nutrição, com mudanças fisiológicas e metabólicas permanentes. E, essas mudanças, levam à doença coronariana e derrame na idade adulta.

 

Essa história continua num próximo, futuro, post. Contaremos como a II Guerra Mundial forneceu dados importantíssimos para respaldar a teoria do professor Barker.

 

Até a próxima!

 

Referência

 

Barker DJP. Mothers, Babies, and Disease in Later Life. BMJ Publishing Group: 1994. 180p.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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