• Natália P. Castro

Acesso global pela adaptação local: seleção natural e alimentação


Este não é um título nosso, mas sim do artigo sobre o qual falaremos hoje, intitulado “Going global by adapting local: a review of recent human adaptation”. A ideia é falar sobre adaptações genéticas feitas para os diferentes tipos de ambiente.


Os humanos modernos se originaram há 200.000 anos, na África. Nos últimos 100.000 anos, os humanos se espalharam pelos ambientes do globo, dos trópicos ao Ártico, de altitudes baixas aos ambientes mais tóxicos. E nos últimos 10.000 anos, a maior parte da população humana transacionou de um estilo de vida caçador-coletor para a agricultura e pastoreio, o que resultou no aumento da população e aumento de doenças infecciosas. A seleção provocada pelos diferentes ambientes e às novas dietas resultou em variações genéticas específicas de cada região e que resultaram em diferenças fenotípicas, como altura diferente, resposta do sistema imune, tolerância à lactose, eficiência no metabolismo de ácidos graxos e níveis de hemoglobina.


Adaptação ao consumo de lacticínios


Com o início da domesticação de animais no midoeste e norte da África, há 10.000 anos, houve uma forte pressão seletiva para adultos com a habilidade de beber leite. Explicamos: sobreviviam mais e se reproduziam mais, os adultos que tinham a capacidade de digerir o leite.


A lactase, enzima que metaboliza o açúcar do leite (lactose), na maioria dos mamíferos, é reduzida logo após a amamentação. No entanto, descobriu-se que as populações que viviam da extração do leite e da produção de seus derivados, mantinham concentrações mais altas de lactase durante toda a vida adulta, o que ficou conhecido como persistência da lactase.


Acontece que o gene que codifica a lactase, no locus LCT, apresenta um dos sinais mais fortes de seleção no genoma humano. As variantes europeias e africanas deste gene que garantem a persistência da lactase são observadas principalmente nas populações pecuaristas.



Adaptação ao consumo de dietas ricas em gorduras / Adaptação ao frio


No passado, atribuía-se à dieta rica em ômega-3 (provenientes dos peixes de águas profundas) a longevidade dos inuítes. No entanto, pesquisadores encontraram nos inuítes, um grupo de genes responsáveis por enzimas que metabolizam esses ácidos graxos, genes ausentes em outras populações. Essas mutações teriam sido selecionadas nos inuítes por conta da necessidade energética aumentada no ambiente ártico. Uma curiosidade é que dois grupos dessas enzimas também seriam responsáveis pela baixa estatura dos inuítes.



Aí foram dois exemplos de como a seleção natural impacta a nossa alimentação - e isso é só o que a gente conhece até agora. Quais outras será que temos por aí?


Dúvidas? Mandem mensagens pelas nossas redes sociais!




Referência



Fan et al. Going global by adapting local: A review of recent human adaptation. Science, 354(6308): 54–59, 2016.



Posts recentes

Ver tudo
Últimos posts
Tags