• Natália P. de Castro

FAQ - amamentação

Apesar de ser primordial e instintiva, a amamentação parece ser uma incógnita para mães de primeira viagem (e por vezes, até aquelas que já amamentaram, com sucesso, o primeiro filho). Muitos profissionais cobram caro para orientar e apoiar mães apavoradas com possível impossibilidade de amamentar exclusivamente seus nenéns. Há muitos anos eu me deparo com essas mães e procuro ajudar sempre que possível. É tanto, que a amamentação se tornou alvo de muitos textos meus. E hoje, esse é mais um desses textos. Vale lembrar que os médicos inseridos nos cuidados de puérperas e recém-nascidos são figuras coadjuvantes importantes para o aleitamento materno e, por vezes, tornam-se protagonistas do desestímulo à amamentação e advogados das indústrias de fórmulas infantis. Os argumentos são quase sempre os mesmos. O que eu ouço com mais frequência na prática clínica:


“o seu leite não é suficiente para promover o crescimento adequado do seu neném”; “o seu leite é fraco”; “o seu leite ainda não desceu”;


“o bico do seu peito não é protuberante, por isso, a pega está muito difícil, use o bico de borracha e complemente com fórmula”;


“ele chora assim, porque ainda está com fome”.


O que apavora as mães mais que a própria impossibilidade de amamentar, é a possível negligência do seu filho, que, sob o seu ponto de vista, pode sofrer com fome ou ter seu desenvolvimento comprometido, porque ela, a mãe, está presa ao ideal de querer amamentar exclusivamente o seu filho.


Hoje, vamos tentar entender um pouco sobre um sistema metabólico e endócrino complexo, que prepara o corpo da mulher para o aleitamento materno, e revelar o que, efetivamente, pode influenciar no volume e produção do leite.


Para começar


A glândula mamária começa a se desenvolver antes mesmo da mulher nascer – ainda no útero. Não é à toa, que hoje estudamos até os fatores que, no útero, podem contribuir para o câncer de mama na idade adulta (objeto da minha tese de doutorado). A partir do nascimento, a glândula mamária evolve de forma alométrica, ou seja, obedecendo a fisiologia do órgão, mas fica dormente até a puberdade. Na puberdade, pela ação do estrogênio e progesterona, a glândula mamária sofre mudanças mais dramáticas, crescendo e se ramificando. Na gestação, pelas ações do estrogênio, progesterona e prolactina, as unidades alveolares (A) são expandidas. E é a partir do segundo trimestre da gestação, a prolactina induz o estágio de secreção do leite.




A lactação é o último estágio de desenvolvimento da glândula mamária. Após o término da lactação, isto é, quando a mãe interrompe definitivamente a amamentação do seu filho, a glândula mamária involui, retornando ao seu estágio adulto.


Sendo assim, aqui vem uma das nossas questões mais frequentes:


  • Meu neném nasceu e eu não estou produzindo leite. O que fazer?


Dificilmente você não está produzindo leite. Os alvéolos, ductos e lóbulos amadurecem no segundo trimestre da gestação. Ou seja, ainda que o seu neném tenha nascido prematuro, você, muito provavelmente, já está produzindo leite (lactando).


A produção do leite durante a gestação é conhecida como “estágio I da lactogênese”. Nesta etapa, como dito anteriormente, a glândula mamária já está diferenciada suficientemente para produzir quantidades específicas de alguns componentes lácteos, como caseína e lactose. No entanto, às vezes, a secreção desses componentes pode ser atrasada pelas concentrações de progesterona e estrogênio, fazendo com que estes componentes do leite sejam reabsorvidos para a circulação materna. Por conta dessa reabsorção dos componentes lácteos, as concentrações sanguíneas de lactose e α-lactoalbumina ficam aumentadas. Portanto, é possível detectar essa fase da lactação pelo exame de sangue.


O estágio 2 da lactogênese ocorre aproximadamente 4 dias após o parto, após a redução da concentração circulante de progesterona. É nesse momento que se estabelece o maior volume de lactação (500 a 750 mL de leite/dia). Esse processo é acompanhado por mudanças da glândula mamária, com alterações na permeabilidade das células epiteliais da glândula. Caso necessário, esta etapa pode ser verificada pela composição do leite, que ficam mais ricos em substâncias protetoras, como lactoferrina, e carboidratos complexos.


  • Eu não consigo amamentar meu recém-nascido, porque o meu peito está todo ferido. Aqui na maternidade, eles sugeriram o bico de silicone. Posso usar?


Não recomendamos. Pelas mudanças hormonais que acontecem no parto, os mamilos realmente ficam mais sensíveis. O aumento do volume de leite também estica a pele das mamas, tornando-as mais sensíveis. Isso tudo é agravado pelo início da amamentação. Quando o neném abocanha, esfomeado, o peito já sensível da mãe. Já vi mulheres tremerem nessa primeira fase da amamentação. Isso acontece ainda na maternidade.


Mas... Acalme-se. Respire. Todas as mulheres passam por isso. As fissuras nos mamilos nesse início do aleitamento são quase certas, mesmo para as mães mais preparadas. Mas dura pouco tempo. Eu vejo o problema rescindir, na prática, na segunda semana após o parto.


O problema do bico de silicone é que os bebês se acostumam com esse bico, dificultando a amamentação sem a estrutura. Outro ponto negativo, é que a sucção do bebê pode não ser tão eficaz quanto o contato pele a pele, o que acaba comprometendo a produção do leite materno e o ganho de peso do neném. Portanto, lembrem-se: vai passar, aguente firme. Todas, ou quase todas as mães que amamentam passaram por isso.



Agora para a produção do leite estimulada pela sucção do neném


Quando o neném faz a sucção, impulsos nervosos passam do mamilo para o cérebro. Como resposta, a glândula pituitária secreta prolactina e ocitocina para a maior produção de leite.

A prolactina estimula a produção do leite pelo alvéolo. Este hormônio está na sua maior concentração, 30 minutos após o início da mamada. Portanto, a maior função da prolactina é produzir leite para a próxima mamada. Durante as primeiras semanas após o nascimento, quanto mais o bebê mamar, maior será a quantidade de prolactina produzida pela mãe e maior será a produção de leite. A prolactina é fundamental principalmente quando o aleitamento materno está se estabelecendo. Outro fato importante, é que maiores quantidades de prolactina são produzidas à noite. Portanto, a amamentação noturna é importante.

Aqui vem a nossa terceira pergunta mais frequente:


  • Eu preciso acordar o meu bebê para ele mamar a noite?


Não! A regra da amamentação é a livre demanda. Isso significa que, quando o neném pedir, ele deve ser amamentado. Naturalmente, os bebês não dormem a noite inteira. Podem acordar muitas vezes para mamar. A melhor qualidade da mamada, aquela que dura mais tempo, pode garantir uma melhor qualidade de sono, tanto para mãe quanto para o bebê. Mas não se deve mexer no controle de fome e saciedade. Ou seja, não há necessidade de acordar o neném para mamar se ele não estiver com fome ou pedindo (chorando).


Outro hormônio importante para a amamentação é a ocitocina, que, ao contrário da prolactina, é produzida rapidamente. A ocitocina é responsável pela contração alveolar, que faz com que o leite seja ejetado pelos ductos e que o neném o receba rapidamente. A ocitocina também está associada ao estímulo da lactação pelos reflexos. Assim, quando a mãe pensa no seu neném, quando o bebê chora ou a mãe sente o seu cheiro, as concentrações de ocitocina aumentam e o leite é ejetado. Por isso, a primeira hora da mãe com o seu neném (conhecida como Golden hour) é fundamental para o estímulo da relação mãe-filho e lactação.


Situações de estresse podem interferir na produção de ocitocina, o que pode interferir na quantidade de leite disponível para o neném, afetando a amamentação. Por isso, a importância de uma rede de apoio, que poupe, sustente e apoie a mãe nesse processo de amamentação.


Temos muitas outras FAQ de amamentação, mas vamos deixá-las pra textos posteriores. Caso tenham dúvidas que gostariam que a gente respondesse, mandem mensagem pelas nossas redes sociais.






Referências


https://journals.physiology.org/doi/full/10.1152/physrev.00040.2018


http://fisiovet.uff.br/wp-content/uploads/sites/397/delightful-downloads/2018/07/Gl%C3%A2ndulas-mam%C3%A1rias.pdf

https://www.sanarmed.com/fisiologia-da-lactacao-e-manutencao-da-producao-de-leite-colunista

https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0031395505702844

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK148970/#:~:text=There%20are%20two%20hormones%20that,the%20nipple%20to%20the%20brain.


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