Coronavírus e as fake news da Nutrição



Não é de hoje que notícias falsas se disseminam na velocidade da luz sempre que um assunto de grande impacto passa a dominar a mídia. Sendo a pandemia do COVID-19 o assunto da vez, não demorou a surgir uma série de receitas milagrosas e dicas infalíveis supostamente capazes de curar a infecção ou tornar o sistema imunológico das pessoas blindado ao vírus.


Hoje listamos aqui alguns deste mitos que não são capazes de curar nem de garantir proteção contra a doença, e pontuamos por que não devemos acreditar neles.



1. Consumir alimentos com pH alcalino

A "dica" vem acompanhada de uma falsa afirmação de que alimentos com pH elevado poderiam destruir o vírus, fato este que não tem qualquer fundamento científico. Além disso, esta falsa notícia cita até mesmo alimentos ácidos como sendo alcalinos (como limão, laranja e abacaxi). Ou seja, um desserviço total!


2. Chá de limão com bicarbonato (à tarde!)

Esta seria a receita que estaria curando o povo de Israel. Segundo a falsa notícia, a combinação subiria o pH do corpo no momento certo do dia, evitando assim que "à noite o sistema imunológico se tornasse ácido e mais vulnerável". Apesar do bicarbonato ser alcalino, o pH do limão é ácido, então dependendo da quantidades de cada um usadas nesta "receita", nem seria possível saber se a mistura seria ácida, neutra ou alcalina. E mesmo que fosse alcalina, não seria capaz de aumentar a imunidade. Além disso, nosso sistema imunológico não é uma parte específica do corpo, nem tem um pH próprio, e tampouco se torna mais vulnerável no período da noite.


3. Chá de alho

O alho é um alimento com propriedades antioxidantes, antifúngicas e antimicrobianas, podendo efetivamente contribuir com a manutenção da imunidade. Mas não há nenhuma evidência científica de que seu chá (ou até mesmo sua ingestão) seja capaz de curar ou tratar a infecção pelo novo coronavírus.


4. Tomar água a cada 15 minutos

A ideia por traz da notícia é que tomar água com grande frequência faria com que os vírus eventualmente presentes na cavidade oral fossem levados para o estômago ao invés de atingir os pulmões, sendo então destruídos com a acidez gástrica. Porém tais medidas não são capazes de proteger o organismo de uma possível contaminação, que pode ocorrer diretamente pelas vias aéreas e até mesmo pelos olhos.


5. Bebidas quentes

O suposto mecanismo de ação seria similar à hidratação frequente, com o "bônus" de que o calor seria ainda mais eficiente para destruir o vírus, já que no ambiente ele não resiste por muito tempo a temperaturas elevadas. Além da explicação já mencionada no último item, quando uma bebida quente é ingerida, sua temperatura já começa a baixar ao entrar em contato com a saliva, e logo iguala-se à do nosso corpo. É importante lembrar ainda que as temperaturas de sobrevivência do vírus diferem se ele está no ambiente ou em um hospedeiro. Sem hospedar-se em uma célula viva, o vírus tem menor resistência, mas dentro do organismo é capaz de se multiplicar normalmente, mesmo com a nossa temperatura usual em torno de 36,5°C.



6. Café

Segundo a notícia em circulação, substâncias antioxidantes presentes no café (como teobromina e teofilina) seriam capazes de combater o coronavírus, e assim estariam sendo curados os doentes na China. Mas apesar de benéficas ao organismo, tais substâncias (bem como outros compostos do café) não são capazes de curar a gripe. Um estudo publicado na semana passada (Li et al., 2020), porém, identificou que receptores gustativos tipo 2 (type 2 taste receptors - TAS2Rs, responsáveis por identificar sabores amargos), quando estimulados, podem desempenhar um papel importante nos mecanismos de defesa, reforçando a resistência do corpo a eventuais infecções por vírus, bactérias e parasitas. Tal estímulo poderia ocorrer com a administração de medicamentos agonistas de TAS2Rs, como também pela ingestão regular de alimentos amargos (como café e chá sem açúcar, vegetais verde-escuros e chocolate com alto teor de cacau). Vale lembrar que se tratam ainda de evidências científicas iniciais, e que os alimentos não são capazes de curar as infecções, mas sim de fortalecer o sistema imunológico.


7. Suplementar vitamina C em excesso

A vitamina C realmente ajuda na manutenção do sistema imunológico, mas nosso organismo não é capaz de aproveitar grandes quantidades desta vitamina de uma só vez, nem de estocá-la, por ser hidrossolúvel. Assim, não há razão para tomar altas doses todos os dias. As necessidades diárias deste nutriente (que variam de 75 a 90 mg por dia) podem ser, inclusive, facilmente adquiridas com a ingestão de frutas cítricas (uma laranja de 150g, por exemplo, fornece cerca de 80 mg). Estudos investigando a eficácia de terapias envolvendo a adminsitração intravenosa de vitamina C em pacientes com COVID-19 estão em andamento, e podem futuramente auxiliar no seu combate (Carr, 2020).



8. Mega dose de vitamina D

Circula pela internet que a administração de uma dose de 600.000 UI de vitamina D seria indicada para profissionais da saúde, como forma de fortalecimento do sistema imunológico. A vitamina D realmente exerce um papel importante na imunidade, mas não há nenhum estudo que defenda o uso de quantidades tão elevadas, Por outro lado, diversos estudos mostram que doses excessivas podem trazer riscos à saúde. Tal quantidade é absurdamente mais elevada do que qualquer tratamento para deficiência de vitamina D, e pode causar perda de massa óssea, risco elevado de quedas e fraturas, insuficiência renal, crises convulsivas e morte (SBEM e ABRASSO, 2020). Por outro lado, a suplementação (em doses menores) pode ser indicada para pessoas com diagnóstico de deficiência de vitamina D, de modo a normalizar as concentrações desta vitamina. Tal suplementação deve ser avaliada e indicada por médico ou nutricionista.



9. Tomar sol

O calor do sol não será capaz de matar nenhum eventual vírus que o seu organismo esteja portando. É verdade que a sua pele produzirá vitamina D, que como já falamos, ajuda na imunidade de forma geral, mas isso não irá tratar uma infecção e nem tornar uma pessoa resistente ao vírus. Além disso, a exposição solar exagerada e sem precaução pode causar queimaduras e envelhecimento precoce da pele, além de aumentar o risco para câncer de pele. Para garantir uma produção saudável de vitamina D, 20 minutos diários ao sol são suficiences, evitando os períodos de pico e protegendo o rosto e outras áreas mais sensíveis. Para exposições mais prolongadas, o uso de protetor solar é indicado.


10. Bebidas alcóolicas

Baseado no fato de que álcool é eficaz para eliminar o vírus de superfícies, espalhou-se a ideia de que ingerir bebidas alcólicas seria um medida capaz de destruir o vírus no corpo humano. Mas não é. O álcool ingerido é diluído, degradado e metabolizado, sendo incapaz de atuar contra uma possível infecção. Seu consumo excessivo pode, inclusive, prejudicar a saúde, sobrecarregar o fígado, alterar a microbiota e causar danos no pâncreas e no trato gastrointestinal (Rocco et al., 2014).

11. Soro nutritivo intravenoso

Veiculou-se que uma médica de Ribeirão Preto (SP) vendia e aplicava o chamado "shot de imunidade", um soro contendo vitaminas e outros nutrientes, sob a pretensão de reforçar o sistema imunológico e combater os efeitos do novo coronavírus. Pois, mais uma vez, não há qualquer evidência científica a favor do procedimento. A médica que propagava este método teve, inclusive, sua licença de atuação cassada depois disso.


Em resumo: nenhum alimento ou nutriente é capaz de blindar a nossa imunidade contra o novo coronavírus. Alguns realmente podem ajudar a fortalecer a imunidade, e podem fazer parte de uma dieta diversificada e saudável. Por outro lado, ingerir alimentos ou nutrientes em excesso pode ser inútil ou, muito pior, perigoso para o organismo. Para se proteger, medidas de higiene e isolamento social continuam sendo as mais importantes neste momento.


Para não cair nestas falsas notícias e nem disseminá-las sem querer, fique atento às fontes das informações. Prefira sempre consultar fontes oficiais de órgãos públicos, universidades e de agências de fomento à pesquisa, e veículos comprometidos com embasamento científico. Vale também conferir o site do Ministério da Saúde, que tem uma página especial para refutar ou confirmar este tipo de informação.


Confira também nosso conteúdo especial relacionado à quarentena do COVID-19: cuidados com a alimentação na quarentena e como explorar a criatividade na hora de se alimentar.



Referências

Carr AC. A new clinical trial to test high-dose vitamin C in patients with COVID-19. Crit Care. 2020 Apr 7;24(1):133. doi: 10.1186/s13054-020-02851-4.


Grant WB, Lahore H, McDonnell SL, Baggerly CA, French CB, Aliano JL, Bhattoa HP. Evidence that Vitamin D Supplementation Could Reduce Risk of Influenza and COVID-19 Infections and Deaths. Nutrients. 2020 Apr 2;12(4). pii: E988. doi: 10.3390/nu12040988.

Kakodkar P, Kaka N, Baig MN. A Comprehensive Literature Review on the Clinical Presentation, and Management of the Pandemic Coronavirus Disease 2019 (COVID-19). Cureus. 2020 Apr 6;12(4):e7560. doi: 10.7759/cureus.7560.


Li X, Zhang C, Liu L, Gu M. Existing bitter medicines for fighting 2019-nCoV-associated infectious diseases. FASEB J. 2020 Apr 13. doi: 10.1096/fj.202000502. [Epub ahead of print].


Ministério da Saúde. Covid-19. 2020. Disponível aqui.

Rocco A, Compare D, Angrisani D, Sanduzzi Zamparelli M, Nardone G. Alcoholic disease: liver and beyond. World J Gastroenterol. 2014 Oct 28;20(40):14652-9. doi: 10.3748/wjg.v20.i40.14652.


Sanders KM, Stuart AL, Williamson EJ, Simpson JA, Kotowicz MA, Young D, Nicholson GC. Annual high-dose oral vitamin D and falls and fractures in older women: a randomized controlled trial. JAMA. 2010 May 12;303(18):1815-22.


Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo (ABRASSO). Posicionamento Vitamina D e COVID-19. 2020. Disponível aqui.


Zittermann A, Ernst JB, Prokop S, Fuchs U, Dreier J, Kuhn J, Knabbe C, Birschmann I, Schulz U, Berthold HK, Pilz S, Gouni-Berthold I, Gummert JF, Dittrich M, Börgermann J. Effect of vitamin D on all-cause mortality in heart failure (EVITA): a 3-year randomized clinical trial with 4000 IU vitamin D daily. Eur Heart J. 2017 Aug 1;38(29):2279-2286.

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