Outra marginalização

13/11/2019

 

 

Todos nós nutricionistas sabemos que a obesidade recebe a classificação de doença pelas inúmeras associações de saúde mundiais, como as respeitadas Sociedades Americanas de Medicina, Endocrinologia Clínica, Cardiologia, Cirurgia e Cardiologia (Rosen, 2014). A obesidade, inclusive, consta na classificação internacional de doenças (CID-11), conforme mostrado na imagem abaixo.

 

A classificação da obesidade como doença não torna o corpo da pessoa com obesidade domínio público. Tampouco você, e incluo aqui profissionais que trabalham no eixo nutrição-saúde, pode inferir qualquer coisa sobre a alimentação da pessoa com obesidade. Esta associação não é uma matemática simples. E sim, existe a possibilidade de que a obesidade tenha outra origem além do desbalanço energético per se - basta buscar na classificação internacional de doenças (CID-11).

 

Aqui nós já fizemos um texto sobre gordofobia. No entanto, como os estigmas carregados pelas pessoas com obesidade estão sendo perpetuados nas escolas, trabalho, ruas, até mesmo em casa e principalmente nas redes sociais, optamos por abordar essa temática mais uma vez, trazendo novidades.

 

Você sabe o que é estigma?

 

Estigma é definido no dicionário de Cambrige como “sentimento forte de desaprovação que a maior parte da população em uma sociedade tem sobre algo, especialmente quando é injusto”.  A OMS (2017) definiu o estigma da obesidade como o conjunto de crenças e atitudes negativas que pessoas têm sobre outras em decorrência do peso corporal.

 

O estigma da obesidade traz ações contra pessoas com obesidade que provocam a sua exclusão e marginalização, levando a desigualdade social (OMS, 2017).

 

O que devemos fazer quando identificamos eventos rotineiros que contribuem para que exista preconceito direcionado às pessoas com obesidade?

 

  • Caso presencie bullying entre crianças por conta do peso, deve-se tomar ação imediata, corrigindo e monitorando o grupo de crianças que tenha praticado o bullying.

  • Dê voz às crianças obesas, para que elas se tornem auto-confiantes.

  • Os pais das crianças e adolescentes com obesidade também precisam ser ouvidos - é necessário empoderar as crianças e adolescentes com obesidade.

  • Em apresentações e quando for criar algum material didático, evite usar imagens de pessoas com obesidade que as mostre de forma negativa. Considere:

    • não usar imagens distorcidas que mostra apenas o abdomen, como a foto de uma blusa curta e a barriga aparecendo para indicar indivíduo com obesidade;

    • não usar fotos do pescoço para baixo de pessoas com obesidade ou com tarja preta nos olhos;

    • evitar fotografias de pessoas com obesidade em situações esteriotípicas, como comendo junk food ou sentado vendo TV.

  • A pessoa ou paciente “tem obesidade” e não “é obeso”. Por isso, policie-se para não dizer “pessoa obesa”.

 

 

É preciso ter empatia

 

  • Quando vir uma pessoa com obesidade, muito provavelmente esta pessoa já fez muitas coisas, inclusive perigosas, para perder peso.

  • Quando vir uma pessoa com obesidade, é muito provável que ela não faça acompanhamento médico, pois já sofreu discriminação no consultório e é temerosa de entrar em contato com outros profissionais de saúde.

  • Quando vir uma pessoa com obesidade, você está vendo uma pessoa exatamente como você. 

 

A verdade é que eu tenho uma preocupação profunda sobre como as nossas ações tem a capacidade de excluir e marginalizar uma pessoa ou grupo. Algo que eu, pessoalmente, tenho presenciado constantemente na prática clínica são crianças e adolescentes com obesidade que, ao sofrerem bullying e diante da ausência de proteção desta situação, perdem a vontade de frequentar a escola. Essas crianças abrem mão das atividades que gostam de fazer e, mais importante, do aprendizado. Preferem a reclusão e as telas à situações sociais.

 

Não é preocupante que a criança com obesidade deixe de frequentar a escola, de aprender, por conta de um preconceito? É justo? Acredito que esta seja uma preocupação mundial, uma vez que a própria Organização Mundial da Saúde publicou um documento para orientar a população sobre os estigmas da obesidade (OMS, 2017).

 

E isso nada tem a ver com a obesidade ser ou não doença. É muito maior do que isso. É discriminação na sua forma mais simples. É uma violência praticada de forma gratuita contra o outro e isso deve, a qualquer custo, ser condenado. 

 

No mais, é muito audacioso acreditar que, apesar dos esforços mundiais para conter a epidemia da obesidade e a complexidade do tratamento desta doença multifatorial, o comentário de alguém sobre o corpo de uma pessoa com obesidade vai exercer qualquer outra função que não a de magoar gratuitamente aquela pessoa. E, aos profissionais de saúde que acreditam que os estigmas carregados pelas pessoas com obesidade não existem (gordofobia), falta-lhes experiência, estudos e uma boa conversa.

 

Finalmente, recomendamos o episódio 13 do podcast intitulado “projeto piloto”, que se trata de uma conversa leve entre a personal stylist Thaís Farage, a blogueira Luíza Ferreira e a criadora de conteúdo Juliana Romano. Nessa conversa, muitas das coisas que falamos no texto de hoje são trazidas para discussão de forma construtiva. Há discordâncias e, caso queiram nos trazer discussões e saber nossa opinião, estamos sempre disponíveis pelas nossas redes sociais. 

 

Referências   

- Rosen H. Is Obesity A Disease or A Behavior Abnormality? Did the AMA Get It Right? Mo Med, v. 111, n.2, p.104-8, 2014.

 

- ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics. Disponível em https://icd.who.int/browse11/l-m/en. Acessado em 12 de novembro, 2019.

 

- Dicionário de Cambridge. Disponível em: https://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/stigma. Acessado em: 12 de novembro de 2019.

 

- OMS. Weight bias and obesity stigma: considerations for the WHO European Region (2017). Disponível em: http://www.euro.who.int/en/health-topics/noncommunicable-diseases/obesity/publications/2017/weight-bias-and-obesity-stigma-considerations-for-the-who-european-region-2017. Acesso em 19 de novembro de 2019.

 

 

 

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