Farmácia popular: guaraná

Movida pelos acontecimentos da semana, ouvi, ou melhor, li (Alcântara, 2019), a Amazônia sendo referida como “maior laboratório científico da nossa civilização”. Considero essa analogia apropriada, e, por isso, hoje, optei por compartilhar um dos achados dessa nossa floresta: o guaraná.



Já conhecido há muitos anos pelos índios, o nome científico do guaraná ou uaranã (“olho de gente”), como é referido pelas tribos da região, tem o nome de Paullinia cupana, em homenagem ao médico botânico alemão C.F. Paullini, nascido em 1643, quem primeiro descreveu o fruto.


Na Amazônia, o guaraná é mais abundante próximo aos rios Madeira, Tapajós, Amazonas e pelas cabeceiras dos rios Maraú e Andirá (os locais estão demarcados com estrelas amarelas no mapa).


Há muitas crenças associadas à origem do fruto, mas a mais frequente na literatura é de que um casal de índios da tribo sateré-maué que vivia muito tempo juntos sempre quiseram ter um filho. Certo dia, o casal pediu à Tupã (Deus dos índios) que lhes desse este presente para que o casal pudesse ser completamente feliz. O pedido foi concedido e o casal teve um menino. O tempo passou e o menino cresceu bom, bonito, feliz e generoso. Juruparí, Deus da escuridão, com inveja do menino e da felicidade e paz que ele emanava, decidiu dar um fim à sua vida. Então, uma tarde em que o menino pegava frutas na floresta, Juruparí se transformou em uma serpente e picou o menino, matando-o imediatamente. A aldeia ficou extremamente entristecida e, diante de tanto sofrimento, Tupã lançou um raio, comunicando à mãe que deveria arrancar e plantar os olhos do curumim. As lágrimas de todos da aldeia regariam os olhos dos meninos pelos próximos dias e, daquela plantação, nasceria um fruto delicioso, que daria força aos jovens e revigoraria os velhos. Quando o fruto finalmente brotou, a aldeia percebeu que se tratava da multiplicação dos olhos do curumim. E que, realmente, ela dava força aos jovens guerreiros e saúde aos velhos.


Hoje, o que os índios já sabiam há muito tempo, vem sendo interesse de muitas pesquisas e comprovou-se: o guaraná é energético, antimicrobiano, quimiopreventivo, antidepressivo, ansiolítico (diminui ansiedade e tensão), além de ter efeito anti-amnésico (Marques et al., 2016).


O fruto é avermelhado e, quando maduro, ele se abre, expondo as sementes (a parte preta). Para os indígenas, quando o guaraná amadurece no pé, já passou o tempo de colheita. O correto é retirá-los do pé antes que amadureçam. Eles são descascados e as suas sementes são lavadas. Depois de secas, as sementes são torradas por horas e os grãos são batidos dentro de sacos, para que as cascas se soltem. Os grãos são descascados manualmente e pilados com água até formar uma massa. Dessa massa são feitos rolos que são defumados por dois meses até que sejam considerados bons para o consumo.

Os indígenas pilam os bastões de guaraná para formar o pó e o misturam à água e bebem em rituais ou quando há necessidade (nos casos de fraqueza, por exemplo).


Atualmente, encontramos o guaraná em muitos formatos no mercado, sendo o mais comumente consumido/conhecido, o em pó.


Às evidências dos benefícios do consumo do guaraná:


Quando digitamos no banco de termos científicos do Pubmed (ou Mesh) as palavras-chave "Paullinia" OR "guarana powder", aparecem como resultado 148 estudos. Destes, 4 estudos são mais antigos (datam entre 1947-1962) e tratam dos aspectos bromatológicos do guaraná, ou seja, o quanto que ele tem de carboidratos, proteína e lipídios, além de umidade.


Sobre a composição do guaraná em pó, temos que 1 colher de café cheia (64g), fornece:

No entanto, o que faz do guaraná um fruto interessante não é a sua composição de macronutrientes (ou nutrientes em maior quantidade), mas sim aos compostos bioativos que estão concentrados nas sementes dos frutos. Entre as substâncias descobertas de compostos com papel funcional (que faz bem ao organismo) estão presente a cafeína, teobromina, catequina e epicatequina (Bortolin et al., 2019).

As descobertas relacionadas às propriedades do guaraná são mais recentes: a maior parte dos estudos foram publicados após 2005, quando a maior parte de nós já era nascido.

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Dados

  • Conforme recentemente publicado por Bortolin et al. (2019), ratos alimentados com dieta obesogênica e guaraná (na concentração de 5%, ou seja, a cada 100 g de ração, há 5 gramas do guaraná em pó) por 18 semanas, ganharam menos peso que animais alimentados apenas com dieta obesogênica. Além disso, observou-se redução de triglicérides e leptina no sangue do grupo alimentado com a dieta obesogênica e guaraná quando comparado ao grupo que recebia apenas a dieta obesogênica. Diante de outros experimentos, os autores concluíram que os efeitos benéficos do guaraná ocorrem via ativação do tecido adiposo marrom (que é o tecido adiposo mais ativo).


  • Conforme o estudo de Tseuguem et al. (2019), em modelo animal de artrite, as folhas do guaraná foram processadas e o extrato foi gavado (quando canula entra direto no estômago dos animais) nos animais doentes, e em diferentes concentrações, diariamente, durante 14 dias. Observou-se que o grupo de animais tratados com extrato de guaraná apresentaram menor edema e processo inflamatório que o grupo induzido para desenvolver artrite. Além disso, os animais tratados com os extratos da folha do guaraná apresentaram menos dor que os animais apenas induzidos para desenvolverem artrite.


  • Em estudos com 10 atletas de alta performance (Pomportes et al., 2019), observou-se o efeito de 3 suplementações diferentes na performance dos atletas: carboidratos, cafeína ou complexo de guaraná (com 300 mg de guaraná + ginseng e outros compostos) . Os compostos eram oferecidos no formato de drink de 250 ml fracionados e a performance era avaliada através de um índice de exaustão durante “tiros” (rápida velocidade em curto período de tempo) na esteira e atividade de longa duração. Os atletas fizeram as 3 intervenções dentro de 2 semanas, com intervalos de 72 horas entre uma e outra. Sob os efeitos do composto de guaraná, os atletas apresentaram menor frequência cardíaca durante a realização da atividade de longa duração. A exaustão foi maior quando foi tomado a bebida controle (sem o guaraná, cafeína ou carboidratos). O tempo de reação (para início da atividade) foi menor quando utilizados os compostos em relação ao controle, mostrando que a atenção foi maior na presença de guaraná, cafeína e carboidrato que no controle.


Há inúmeros estudos que apresentam os benefícios do consumo do guaraná para a saúde de uma forma geral. Foi mostrado benefícios do seu uso em doenças degenerativas, como Alzheimer (Boasquívis et al., 2018), é indiscutível a sua capacidade antioxidante (Majhenič et al., 2017; Tseuguem et al., 2019) e, atualmente, sua função anticarcinogênica (protetora contra o câncer), tem sido explorada em estudos in vitro, ou seja, que usam células (Cadoná et al., 2017).


O potencial do guaraná é similar a muitos outros frutos, folhas e tubérculos que temos disponíveis na floresta mais diversificada do mundo. Talvez deixe outros frutos conhecidos, como o mirtilo, que não é nacional, no chinelo. E pasmem! Enquanto há apenas 145 estudos disponíveis sobre o guaraná, há 1957 estudos sobre o mirtilo. E o guaraná, os índios e nós já conhecemos há um tempo.


Ou seja, o que mais tem emaranhado na parte não explorada desta floresta? O que a sua destruição representa? Afora as questões que, para nós, são óbvias, como a saúde respiratória da população mundial.


Vale ainda dizer que a maior parte dos estudos publicados sobre o guaraná são brasileiros, possivelmente por questões relacionadas ao acesso. Atualmente, no banco internacional de ensaios clínicos (que lista os estudos registrados que empregam o alimento em indivíduos), há dois estudos concluídos da Faculdade de Medicina do ABC e um em andamento sobre os efeitos do guaraná nos sintomas de fadiga e anorexia em pacientes oncológicos. Há resgistrado apenas 4 ensaios clínicos com o guaraná. Sabem quantos ensaios clínicos o mirtilo protagoniza? 84.












O texto de hoje foi sobre o guaraná, sobre a nossa cultura e herança indígena, mas é, sobretudo, um enaltecimento ao que ainda temos disponível no Brasil. E sobre o quanto de investimento precisamos para preservar o que temos e, claro, apoiar o nosso desenvolvimento científico.


"Então, será que com os benefícios mostrados pelo uso do guaraná, será que devemos todos ir comprar o pó, que hoje encontramos com certa facilidade em lojas de produtos naturais?"


Não.


Não há número de estudos suficientes, infelizmente, que nos permita fazer esta indicação. Dito isso, é possível experimentar o guaraná desde que com supervisão de um nutricionista - pois o seu uso indiscriminado traz riscos e não são todos que podem experimentar.


Obs.: a quantidade de guaraná presente no refrigerante é pequena para apresentar algum benefício à saúde.




Link das imagens utilizadas

- https://imgbin.com/png/EWnqUMpz/guarana-amazon-rainforest-fruit-caffeine-seed-png#_=_

- https://www.sccpre.cat/down/ihJoxxm_guarana/

- https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=40641327https://pt.wikiversity.org/wiki/Wikinativa/Sater%C3%A9s-mau%C3%A9s

- http://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2014/05/no-am-turistas-enfrentam-formigas-venenosas-e-dores-em-ritual-indigena.html

Todas as páginas foram acessadas em 24 de agosto de 2019.

Referências utilizadas:

-Alcântara, Araquém. A Ferro e Fogo, 2019. Mídia Ninja. Disponível em:

http://midianinja.org/araquemalcantara/a-ferro-e-fogo/?fbclid=IwAR27ygxgVMvYOAVB_q-OaYaZqlJuMkJAByngx7PfsPcYWyU61ZFgR9HqMhA

-Boasquívis PF, Silva GMM, Paiva FA, et al. Guarana (Paullinia cupana) Extract Protects Caenorhabditis elegans Models for Alzheimer Disease and Huntington Disease through Activation of Antioxidant and Protein Degradation Pathways. Oxid Med Cell Longev, 9241308, 2018.


-Bortolin RC, Vargas AR, de Miranda Ramos V, et al. Guarana supplementation attenuated obesity, insulin resistance, and adipokines dysregulation induced by a standardized human Western diet via brown adipose tissue activation. Phytother Res, 33(5):1394-1403, 2019.


-Cadoná FC, Rosa JL, Schneider T et al. Guaraná, a Highly Caffeinated Food, Presents in vitro Antitumor Activity in Colorectal and Breast Cancer Cell Lines by Inhibiting AKT/mTOR/S6K and MAPKs Pathways. Nutr Cancer, 69(5):800-810, 2017.


-Marques LL, Pannizon GP, Aguiar BA et al. Guaraná (Paullinia cupana) seeds: Selective supercritical extraction of phenolic compounds. Food Chem, 212:703-11, 2016.


- Pomportes L, Brisswalter J, Hays A, Davranche K. Effects of Carbohydrate, Caffeine, and Guarana on Cognitive Performance, Perceived Exertion, and Shooting Performance in High-Level Athletes. Int J Sports Physiol Perform, 14(5):576-582, 2019.


-Tseuguem PP, Ngangoum DAM, Pouadjeu JM et al. Aqueous and methanol extracts of Paullinia pinnata L. (Sapindaceae) improve inflammation, pain and histological features in CFA-induced mono-arthritis: Evidence from in vivo and in vitro studies. J Ethnopharmacol, 236:183-195, 2019.


-Guaraná. Disponível em: https://www.portalsaofrancisco.com.br/alimentos/guarana. Acessado em 24 de agosto de 2019.




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