Conhecendo o baby-led weaning

15/11/2017

 

Inspirada pelos bebês nascidos na minha família no ano de 2017, o artigo de hoje é sobre um tema que tem sido muito comentado pela imprensa nos últimos meses. Trata-se de uma nova forma de realizar a transição alimentar na infância, o baby-led weaning ou, em tradução livre, o desmame liderado pelo bebê.

 

Sabe-se que, a partir dos 6 meses de idade, o bebê deve deixar de se alimentar exclusivamente do leite materno e o seu primeiro contato com os alimentos é iniciado. Nessa fase do desenvolvimento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a oferta de alimentos cuidadosamente liquidificados, papas, sem pedaços maiores. Ao longo do tempo, a textura da alimentação do bebê deverá evoluir até os 12 meses de idade, quando ele já deverá ser capaz de comer o que a família come. Os alimentos íntegros, como palitos de cenoura, por exemplo, podem ser ofertados a partir do 8º mês de vida. Contudo, segundo a OMS, os purês devem compor o alimento principal nas refeições e não os alimentos íntegros. Essa diretriz é apresentada ao redor do mundo, com pequenas variações, como o tempo de introdução dos alimentos íntegros.

 

No Brasil, o “Manual de Orientação do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria”, em seu 5º passo, refere que: “a alimentação complementar deve ser espessa desde o início e oferecida com colher; começar com consistência pastosa (papas/purês) e, gradativamente, aumentar a consistência até chegar à alimentação da família”. Os autores relatam que as refeições mais espessas e consistentes apresentam maior densidade energética comparadas com as dietas diluídas, como sucos e sopas ralas: “Como a criança tem capacidade gástrica pequena e consome poucas colheradas no início da introdução dos alimentos complementares, é necessário garantir o aporte calórico com papas de alta densidade energética”. Essa diretriz é similar às orientações oferecidas pelo “Guia alimentar para crianças menores de 2 anos”, publicado em 2005 pelo Ministério da Saúde, que desencoraja o uso de sopas, pois têm baixa densidade energética e a “pequena capacidade gástrica das crianças pequenas as impedem de atingir as necessidades energéticas por meio dos alimentos complementares diluídos”.

 

 

Mas como que o baby-led weaning é diferente do método tradicional?

 

Mundialmente, o baby-led weaning começou a ganhar repercussão e adeptos em 2001, mas foi em 2008, com a venda global do livro “Baby-led weaning” que a prática passou a ser adotada por maior número de famílias. A mudança da recomendação de início da introdução alimentar de 4 para 6 meses pela Organização Mundial da Saúde, em 2003, também impulsionou o movimento.

 

 

Percebeu-se que, aos 6 meses, a maior parte dos bebês já está apto para se sentar sozinho, levar o alimento até a boca, mastigar e engolir, ações que o bebê de 4 meses ainda não é capaz de fazer. Assim, para o bebê de 4 meses, é necessário amassar e liquidificar os alimentos, pois ele ainda não adquiriu a habilidade de mastigar.

 

Relatos de pais e pessoas que adotaram o baby-led weaning associam essa prática com melhor controle do apetite, alimentação diversificada e melhor desenvolvimento motor. Mas em uma revisão sistemática, os autores avaliaram uma série de estudos e concluíram que:

 

• A maior parte dos bebês são capazes de iniciar a auto-alimentação aos 6 meses de idade. A não ser aqueles que não foram estimulados, tem alguma forma de déficit ou dificuldades sensoriais.

 

• A introdução a alimentos sólidos é iniciada de forma tardia no método tradicional em relação ao baby-led.

 

• O primeiro alimento da auto-alimentação (baby-led) geralmente é integral/íntegro e já faz parte da alimentação da família. Os bebês que iniciam alimentação pelo método tradicional costumam comer purê caseiro.

 

• Curiosamente, a família que adota o baby-led weaning amamenta durante maior tempo que os bebês de famílias que adotam o método tradicional. Especula-se que o método baby-led seja protetor para o aleitamento materno.

 

• Em estudo que visou avaliar a reação da mãe na alimentação do filho, observou-se (com questões sobre a pressão/ansiedade materna na hora da alimentação do bebê, preocupação e monitoramento do peso da criança) que as mães que adotaram o baby-led weaning possuíam reação mais responsiva/saudável com a alimentação do filho, comparadas às mães que adotaram o método tradicional.

 

• As mães que adotam o baby-led weaning sentem que não possuem apoio dos profissionais de saúde que as atendem em consultórios ou visitas domésticas. Os profissionais de saúde não se consideram aptos para orientar este tipo de alimentação e manifestam medo de engasgos, falha no crescimento e deficiência de ferro. 

 

• Um dos grandes problemas do baby-led weaning é que, uma vez que se incentiva a prática de o bebê comer a mesma alimentação da família, podem ser ofertados alimentos ricos em sódio e com baixo valor nutricional. Neste caso, as papinhas geralmente feitas só para bebês – utilizadas no método tradicional, poderiam ser melhor opção. Ou a alteração dos hábitos alimentares da família, para que todos passem a se alimentar de forma melhor.

 

• Em relação a ingestão de nutrientes dos bebês, os dois grupos apresentam consumo similar de macro e micronutrientes. Não há, portanto, diferenças no consumo de calorias. Observou-se que as crianças do baby-led costumam consumir maior quantidade de açúcares (presente nos cereais matinais), ao passo que os bebês do método tradicional consomem mais alimentos (papinhas) industrializados (nota-se que os estudos foram feitos na população norte-americana).

 

• Peso: os estudos sobre a adoção do baby-led como protetor para a obesidade na idade adulta ainda são controversos. A maior parte das publicações recentes não observou associação entre os métodos de introdução alimentar e obesidade na idade adulta.

 

• Há maior risco de engasgar com o método baby-led weaning? Estudos que avaliaram os dois métodos relatam que não há diferença de engasgo entre os grupos. Mas esse parâmetro é de difícil avaliação, porque existe muita confusão do que é engasgo e do que é gagging (reflexo de regurgitar, quando algo é introduzido na garganta).

 

 

 

Devo adotar o baby-led weaning com o meu filho?

 

Essa é uma decisão que cabe à família. Como outros métodos, existem prós e contras. Alguns pontos importantes a serem considerados no caso da opção pela auto-alimentação:

 

• O bebê que será educado desde cedo a se auto-alimentar não deve ficar desassistido.

 

• A ideia é de que as refeições sejam realizadas em família, mesmo que a alimentação da família mude para se adequar as necessidades do bebê (o que provavelmente irá melhorar a qualidade da comida da família também).

 

• Nesse período de descobertas, haverá muita bagunça (o que faz parte, uma vez que o bebê manuseia o próprio alimento).

 

• Lembre-se sempre de higienizar bem os alimentos a serem oferecidos para o bebê, assim como as mãos dos bebês.

 

 

Referências


Brown A, Jones SW, Rowan H. Baby-Led Weaning: The Evidence to Date. Curr Nutr Rep. 2017; 6(2): 148–156.

 

Ministério da Saúde. Guia alimentar para crianças menores de 2 anos. Disponível em: http://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/pdfs/Guia_Alimentar_2_anos_MS.pdf

 

Rapley G, Murkett T. Baby-led weaning: Helping your baby to love good food. Random House; 2008. 

 

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria. Disponível em: http://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/pdfs/14617a-PDManualNutrologia-Alimentacao.pdf

 

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